Prefácio do livro "O rapaz que sonhava ser Peter pan" escrito pelo o meu amigo Dr. Eduardo.
Prefacio
“Meu nome
é André Vilaça e está é a minha História”, é um relato na primeira pessoa de
alguém diagnosticado com autismo leve que sente que o corpo cresceu, mas a
criança continua lá, eterna, tipo Peter Pan.
Ao ler o livro lembrei que há uns anos atrás numa conversa de
café, tinha desafiado o André para um livro como este, que desse ao público em
geral, mas acima de tudo aos profissionais, pistas para poderem melhorar a
interação com as pessoas com autismo ligeiro (ex Síndrome de Asperger).
O autor começa por nos informar: “Nas minhas memórias fiz o
melhor para expor os meus pensamentos, sensações tão exatas como possíveis”. É
nestes pensamentos e sensações que reside a riqueza deste livro, já que por
norma, e o autor não é exceção, são de difícil verbalização nos momentos
críticos.
Assim, vamos percorrendo no livro a perspetiva do autor de
vários episódios da sua vida, mostrando-nos quanto a vida de uma pessoa com
autismo leve pode ser de fato difícil quando aspetos de compreensão acerca do
autismo ligeiro e aspetos comunicacionais básicos não funcionam.
Nestes aspetos podemos facilmente enumerar a dificuldade de
leitura e interpretação facial e do tom de voz do outro, a ironia e a metáfora,
muito usadas pelos neurotípicos. Por outro lado, estas dificuldades são muitas
vezes complementadas com outros aspetos também importantes da própria pessoa
com autismo como: comportamentos obsessivos por um ou mais temas, rotinas e
rituais, dificuldade de manter contacto ocular, como bem o autor evidencia no
seu texto. Tudo isto são elementos singulares que, em conjunto, levam a que no
âmbito de uma determinada relação ou interação social, as pessoas com autismo
não projetem uma reação firme de desagrado perante um acontecimento ou
circunstância. Isto faz com que quem trabalha com estas pessoas não saiba bem o
que fazer, pois podem existir sinais contraditórios em relação a um
evento.
A ignorância que existia na escola acerca do autismo nos anos
80, hoje muito melhor sem comparação, aliada à regra de “normalizar” o ensino
para todos, levava a que a maior parte das pessoas com autismo ligeiro fossem
apelidadas de um sem número de adjetivos, e sequente desinvestimento neles. A
ida à escola, em vez de prazerosa passa a ser stressante, e as manifestações de
bullying pelos colegas são uma extensão da sala de aula.
A obtenção do diagnóstico pelo autor, leva o mesmo à
compreensão e aceitação do que se passa na sua vida, libertando-o de um fardo
de stress acumulado. Mas torna-se mais desagradável quando este fica em contato
com autistas severos, com quem não se identifica. Esta perceção, aliada à sua
também capacidade de perceber as dificuldades de adaptação às regras e normas
do mundo “normal”, causadas pelo autismo, leva a que o mesmo sinta estar numa
zona cinzenta entre os neurotípicos e os autistas severos.
Esta “zona cinzenta” é de fato o centro de todo o trabalho e
investigação em que devem investir os profissionais, procurando ajudar as
pessoas como o autor a melhorar as suas competências para sua inclusão plena na
sociedade, sem que por isso passe por um processo de perda da sua
personalidade.
Essa ajuda poderia ser na ultrapassagem das dificuldades de
interação social, como na deslocação a um centro comercial em que o próprio
autor descreve no livro o seu esforço para tal, como em conversas individuais
ou em grupo, acerca dos eventos que possam causar stress, até à elaboração de
uma agenda de trabalho semanal, etc., etc..
Como pessoa que está ligada há quase 20 anos à problemática do
autismo, tendo acompanhado parte da passagem do autor pela APPDA-Norte, termino
este prefácio agradecendo ao mesmo a sua coragem para expor alguns aspetos
pessoais neste livro, apresentando a sua perspetiva e quanto isso o afetou, com
a certeza que este relato vai contribuir para a melhor compreensão das pessoas
que têm filhos ou trabalham com pessoas com esta perturbação mais ligeira do
autismo.
Eduardo Ribeiro
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