Prefácio do meu livro "A cerejeira em flor" escrito pelo o professor Marco Neves
É uma honra prefaciar este romance de André Vilaça, não só pelo seu valor como obra literária, mas pela forma como o autor trata a língua como matéria viva, matéria essencial à nossa vida de seres complexos, complicados, tremendos. Se alguém estranha ver quem costuma andar pelas ruas da linguística a apresentar uma narrativa de ficção, fica esclarecido: esta obra é um espelho da linguagem na sua dupla complexidade — ferramenta de comunicação, mas também código íntimo. A língua é material artístico e herança pessoal, familiar e colectiva. E há ainda isto: escrevo este prefácio enquanto leitor — um leitor que ficou muito feliz por conhecer a voz e o estilo de André Vilaça. Rodrigo Bettencourt, o protagonista excêntrico e professor de música, personifica a dualidade da linguagem. Nas ceias de Natal no Douro, onde os Bettencourt sabem que os presentes só se abrem de manhã cedo , vemos a língua como ritual, guardiã de hierarquias e memórias. Já nas conversas entre o Padre Fr...