Prefácio do meu livro "A cerejeira em flor" escrito pelo o professor Marco Neves
É uma honra prefaciar este romance de André Vilaça, não só pelo seu valor como obra literária, mas pela forma como o autor trata a língua como matéria viva, matéria essencial à nossa vida de seres complexos, complicados, tremendos. Se alguém estranha ver quem costuma andar pelas ruas da linguística a apresentar uma narrativa de ficção, fica esclarecido: esta obra é um espelho da linguagem na sua dupla complexidade — ferramenta de comunicação, mas também código íntimo. A língua é material artístico e herança pessoal, familiar e colectiva.
E há ainda isto: escrevo este prefácio enquanto leitor
— um leitor que ficou muito feliz por conhecer a voz e o estilo de André
Vilaça.
Rodrigo Bettencourt, o protagonista excêntrico e
professor de música, personifica a dualidade da linguagem. Nas ceias de Natal
no Douro, onde os Bettencourt sabem que os presentes só se abrem de
manhã cedo, vemos a língua como ritual, guardiã de hierarquias e memórias.
Já nas conversas entre o Padre Francisco Torres e o irreverente Rodrigo, a
linguagem revela-se campo de batalha entre o formalismo e a rebeldia.
Com a presença da língua élfica, este
livro mostra-nos como até línguas inventadas podem servir para comunicar em
pequenos grupos de amigos ou familiares. Esse código secreto, uma de muitas
referências culturais que vão de Tolkien a Mad Max, passando por Wagner, não é
mero jogo: é um idioma do afeto, prova de que até palavras de línguas
artificiais carregam mundos.
A pandemia de COVID-19, pano de fundo crucial, expõe
outra faceta: a língua como refúgio. Expressões como "confinamento" ganham
peso, enquanto as videochamadas de Natal reinventam a proximidade. A língua
mantém-se como forma de estarmos juntos, mesmo à distância, mesmo quando os
corpos não podem estar próximos.
Neste livro, até a música clássica, paixão de Rodrigo,
se transforma. Quando ele ensina aos alunos que "a música não se
explica, sente-se!", ecoa uma verdade maior: a linguagem técnica só
ganha sentido quando vivida, não enquanto código opaco.
André Vilaça não se limita a retratar a língua — usa-a
como material artístico. A obra serve-se da língua para criar uma partitura de
referências culturais, memórias de personagens, imagens que nos deixam a viver
com estas pessoas, que se tornam também nossas.
O Alzheimer de Rodrigo na velhice poderia ser um
epílogo. Mas a língua élfica persiste, âncora identitária que nem a doença
apaga. No funeral, quando Quim Zé canta em élfico, não celebra apenas um homem:
celebra a sua relação com ele e um património linguístico que desafia a morte.
Esta é a lição final do romance: as palavras sobrevivem aos corpos, e até
idiomas inventados podem ser uma forma de nos aproximarmos das pessoas com quem
conversámos.
E há ainda outra coisa: o humor! Várias vezes, ao ler,
me pus a rir ou a sorrir – e a perceber que também a literatura serve para nos
aproximarmos e ficarmos a saber como é olhar o mundo de outra maneira,
diferente da nossa (todos os seres humanos são diferentes e é pela língua que
podemos viver um pouco da imaginação dos outros), deixando-nos muito mais
ricos.
A Rua de Cerejeira em Flor não é apenas uma história para
ler — é uma partitura para ouvir. Nas aulas de Rodrigo, nos debates sobre
Wagner, até no tilintar das garrafas de vinho do Douro, a língua é música (e
fala de música). E como toda a música, exige escuta atenta. A língua tem o
ritmo dos rituais familiares, das gírias de cada grupo, dos silêncios. E,
agora, a nossa língua tem também o ritmo deste grande livro de André Vilaça.
Marco Neves
atenta. A língua tem o ritmo dos rituais familiares, das gírias de cada
grupo, dos silêncios. E, agora, a nossa língua tem também o ritmo
deste grande livro de André Vilaça.
Marco Neves

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